domingo, 20 de setembro de 2009

O teólogo deve estudar Psicologia?

O objeto de estudo do teólogo não é a divindade em si, mas é o estudo de Deus a partir da sua revelação ou das suas representações nas variadas culturas, o que leva a um estudo sistemático dos fenômenos históricos, sociais, filosóficos, antropológicos e psicológicos das relações entre o sagrado e o profano.
Ante a necessidade de interpretar as manifestações psicológicas que resultam em “comportamento” [logicamente nos referimos a comportamento humano], a psicologia apresenta-se como ciência auxiliar à teologia, dando ao teólogo as ferramentas necessárias à interpretação comportamental.
É sabido que muitos teólogos dedicam-se ao sacerdócio e na condição de líderes espirituais atuam como verdadeiros “psicanalistas”. Aí, para aqueles que buscam na teologia o aperfeiçoamento para o desempenho de suas atividades sacerdotais o instrumental psicanalítico das ciências psicológicas torna-se preponderante para o desempenho da função.
Assim, quer seja para a formação de um cientista teólogo ou de um sacerdote religioso, a psicologia é primordial, pois constitui uma importante vertente do conhecimento requerido.

André Luiz Gomes Schröder

O declínio da pregação contemporânea

John F. MacArthur, Jr.

Resumo, por André Luiz Gomes Schröder.
 

O artigo apresenta em seu foco inicial a influência que a televisão exerce sobre a sociedade, vez que é um veículo que se dedica ao entretenimento, as propagandas apelam às emoções e promove uma visão surrealista do mundo ao mesclar a vida real com a ilusão, resultando em uma banalização da verdade.

A partir da análise do pensamento de Neil Postman, argumenta que a televisão mutila a capacidade de pensar e reduz a aptidão para a verdadeira comunicação ao transmitir informações irrelevantes, teatral, que não desafiam a pensar e faz perder a tolerância de aprender.

Ressalta que no mesmo diapasão há um declínio da pregação, pois em nossos dias é valorizado o evangelista que exagera as emoções e traz uma pregação superficial, porém breve e estimulante, voltada para o  entretenimento e que estimula o ouvinte a um frenesi, sem se importar com o ensino, a repreensão, correção ou educação na justiça, sendo que muitos pregadores já consideram o ensino de doutrinas como algo indesejável e sem utilidade prática, sob o argumento de que  as pessoas não recordam aquilo que foi pregado. Daí, é perda de tempo ouvir  sermões demorados.

Conclui dizendo que a pregação entretenimento é uma completa acomodação a uma sociedade educada pela televisão. Revela pouca preocupação com a verdade. É contrária às escrituras e o grande desafio de um pastor contemporâneo é  alcançar pessoas que se mostram indispostas e incapazes de ouvir com atenção e raciocínio exposições da verdade divina.

Leia a íntegra do artigo em: http://www.monergismo.com/textos/pregacao/pregacao_mac.pdf

sábado, 19 de setembro de 2009

O limiar entre a fé, revelação e Teologia


Revelação é a comunicação ativa que o homem recebe de Deus sobre a natureza, os atributos e os propósitos divinos. Assim, o homem é sujeito ativo na revelação, pois é necessária a interpretação para compreensão e conseqüente aplicação das verdades divinas ao cotidiano humano.
 A teologia estuda o resultado fático da revelação na vida do homem, fazendo surgir crenças, doutrinas, dogmas ou asserções teológicas. Daí, a revelação dá à teologia o seu objeto de estudo. 
A fé é o fundamento da revelação transcendente de Deus. É por ela que o homem busca a revelação para aplicar a vontade divina ao seu cotidiano e para desvendar o “sentido da vida”. Fé e revelação são interdependentes, porém são institutos distintos, bem como é distinta a teologia, pois a teologia se volta para a interpretação das experiências de fé, decorrentes da busca pela revelação. Daí, a fé e a revelação são por demais importantes para a teologia, pois sem aquelas, esta não subsistiria.

André Luiz Gomes Schröder




A música gospel no contexto da sociedade brasileira

  É cada vez maior o número de líderes religiosos e “conjuntos, grupos e bandas” que se dedicam à gravação de mídias com música gospel. Tal fenômeno tem influenciado a música brasileira, porém ainda de modo tímido. Em uma visão hermenêutica, e com o fim de provocar uma análise sincera, indagamos: 
A difusão da música gospel, até mesmo por rádios não evangélicas, se dá por um movimento de sincretismo e ecumenismo ou em atendimento a um apelo por uma musicalidade sem exaltação à sensualidade contida na música brasileira atual? 
A musicalidade praticada é para satisfação psicológica humana ou para louvor da divindade? 
A mercantilização das bandas gospel é reprovável ou assemelha-se à família de Asafe, o levita? 
O propósito é a criação de um nicho profissional e mercantil ou é o louvor a Deus? 
A que interessa a manutenção ou extinção de tal modelo?

André Luiz Gomes Schröder

O ideário de Martinho Lutero



O ideário de Martinho Lutero propugnava por uma igreja menos hierarquizada, mais próxima do povo e firmada na graça e na fé.
Na leitura do seu ideário, “Igreja próxima ao povo” é sinônimo do “povo próximo à palavra”. Daí, a interpretação da palavra não é direcionada pelos objetivos do clero, mas em atendimento às  angústias, necessidades e aflições do povo que deposita suas esperanças na graça redentora de Cristo que é capaz de perdoar os pecados e libertar da culpa e do pecado, por estarem justificados pelo sacrifício vicário e não pela ritualística imposta pelo clero da Igreja. Sendo o povo o lugar e o agente da produção teológica, torna-se incoerente a hierarquia clerical, vez que a “palavra” está com o povo.

Tal concepção de Igreja se perpetuou até nossos dias, promovendo uma reforma constante, ininterrupta, o que propiciou ao leigo, desprovido de estudo teológico, a oportunidade de “ministrar a palavra”, ou seja, ensinar as “Divinas Escrituras”, interpretando-as segundo suas convicções pessoais evoluindo a ponto de promover a ordenação de leigos para o ministério na Igreja, principalmente com o advento do “novo movimento reformador” das Igrejas Históricas: o “reavivamento pentecostal”.

Assim, o ideário de Lutero continua vivo em nossos dias e norteando os caminhos da “evolução” da reforma da Igreja.

André Luiz Gomes Schröder




O círculo hermenêutico


A idéia de círculo hermenêutico foi consolidada a partir da publicação das obras dos pensadores Martin Heidegger (Ser e Tempo) e de seu discípulo Hans-Georg Gadamer (Verdade e Método), para os quais a hermenêutica somente se estabelece no mundo da experiência, no mundo da pré-compreensão, no qual somos e nos compreendemos como seres a partir da estrutura prévia de sentido. É a mesma base da teoria construtivista de Piaget.
Para o  processo interpretativo é necessário compreender o todo de um texto a partir do entendimento das suas partes e estas  a partir da compreensão do todo. Portanto, não é possível partir do ponto zero, da ausência de conhecimento anterior, mas é necessário partir de uma pré-comprensão que  envolva a nossa própria relação com o todo do texto, dando lhe um primeiro sentido, o qual se torna a base para uma significação mais complexa a partir da continuidade do processo, que é dinâmico, contínuo e circular e se renova a cada esforço interpretativo. Daí, A interpretação começa com conceitos prévios, que vão sendo substituídos, por outros mais adequados na medida em que o leitor passa a ouvir a voz do texto e se deixa interpelar por ele.
O círculo hermenêutico, não se traduz pela descoberta de um sentido único, exato ou correto do texto ou da norma. Nele, enquanto a exegese estabelece cada passo ou etapa do projeto interpretativo do texto, a hermenêutica  prima pela definição das condições e princípios norteadores da interpretação do texto. É um contínuo processo de execução de plano de extração de  significação e o retorno de uma nova informação que será acrescida àquelas que foram obtidas anteriormente, construindo um novo conceito.

André Luiz Gomes Schröder

Pode haver harmonia entre a fé e a razão?


A fé e a razão podem trilhar o caminho da harmonia pelo diálogo, mas a guerra de acusações de dogmatismo religioso e superstição e contra-ataque acusatório de ateísmo e heresia, causa instabilidade e abalo da fé. A fé deve aliar-se à filosofia para discernir os conteúdos essenciais dos secundários, os alegóricos dos metafísicos, para que se obtenham bases sólidas. Por outro lado, a fé pode proteger a Filosofia contra reduções racionais que chegue a conclusões apressadas, contraditórias e irracionais.

“A fé também não deve fugir das objeções da razão científica, mas deve estar disposta a argumentar. Se realmente busco a verdade, em princípio, devo interessar-me na discussão. Cada postura deve justificar-se perante o fórum crítico da razão”(ZILLES, Urbano. Fé e razão na filosofia e  na ciência. Rev. Trim. Porto Alegre v. 35 Nº 149 Set. 2005 p. 457 – 479. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/view/1697/1230)

André Luiz Gomes Schröder

Mitos da atualidade..


Sob a influência do cientificismo, o mito toma uma nova roupagem. Permanecem aqueles que se reportam à origem da vida ou quanto à vida após a morte, porém o mito contemporâneo que ganha mais publicidade, afasta-se desse tipo de imaginário para apresentar justificativas, soluções ou modelos a ser seguido no cotidiano. São modelos fabricados pela mídia para servirem de referenciais imaginários para os vários tipos de desejos, anseios e emoções, como os homens rodeados de mulheres nas propagandas de cerveja; os heróis imortais e invencíveis como o Rambo; ou personagens de filmes que se tornam o padrão de comportamento tanto para vestimenta como nas expressões lingüísticas. É uma busca de identidade que deságua no comsumismo. 

André Luiz Gomes Schröder

A relação entre o Templo e sinagoga judaica



Para o judeu o Templo de Jerusalém era o símbolo máximo – visível – da  presença invisível de Deus, no meio do povo. Era o local exclusivo da morada de Deus, de adoração, de comunicação com Jeová e de sacrifício e oferendas a Deus, conforme a doutrina salomônica que foi preservada mesmo com a intercorrência da destruição do templo em 587 a.C.
Nos primórdios da Era Cristã, esta importância é revelada nos eventos da história de Jesus – anuncio do nascimento de João Batista, apresentação de Jesus no Templo, purificação do Templo, profecia de Jesus quando entra em Jerusalém e a grande migração nos dias de festas nacionais para as comemorações no Templo.  Tudo revela o zelo especial que Cristo e os judeus tinham pelo Templo e sua liturgia.
Após o cativeiro, a destruição babilônica do Templo e com a dispersão dos judeus houve necessidade de criar um local de reunião religiosa dos judeus. Esse local foi chamado de Sinagoga. Era o local de reunião – comunhão – oração, adoração a Deus, doutrinamento, julgamento das questões éticas-religiosas e, principalmente, sua função central, a leitura das "Leis e dos Profetas", porém não era um lugar sacrificial. Os sacrifícios judaicos continuavam centrados no Templo de Jerusalém.
Nas sinagogas havia um sentimento de presença especial de Deus, porém somente no Templo havia o "santo dos santos". A sinagoga não substituía o Templo, mas era um espaço próximo do povo onde o acesso era democratizado e serviu de inspiração para os locais de reunião dos cristãos que muitas vezes se reuniram nas sinagogas.

André Luiz Gomes Schröder

A influência do Apóstolo Paulo na Igreja de Cristo

Paulo exerceu grande influência sobre o mundo em seus dias. Com disposição, eloquência, liderança e determinação levou o cristianismo além dos limites geográficos da Judéia com uma doutrina de impacto que perpetuou influenciando o Cristianismo, consagrando-o como o grande teólogo da igreja cristã primitiva. Sua doutrina contempla vários temas, dentre os quais estão a justificação pela fé, a santificação pela obediência e a esperança e certeza da ressurreição em Cristo. Defendeu ardentemente a “mensagem que recebeu de Cristo”, combateu aquilo que entendeu ser heresia, bem como seus autores, tidos por falsos profetas. Foi paladino da unidade da igreja e da igualdade entre judeus e gentios.
Se o caminhar de Paulo pode ser sinônimo de evangelização e propagação da comunhão em Cristo, podemos dizer que a simetria correlata para o nosso tempo é de que seus escritos são sinônimos de edificação e exortação aos cristãos, pois é dado tanto o “leite espiritual” para o neófito como o “alimento sólido” para o crescimento dos imitadores de Cristo.
A maior prova da grandeza da contribuição de Paulo é o resultado das parcas páginas dos escritos de Paulo, as quais já renderam milhares e milhares de outras páginas produzidas por teólogos que buscam interpretar suas doutrinas e com isso produzem a dinâmica da teologia contemporânea reflexa à dinâmica do pensamento e filosofia da sociedade.
André Luiz Gomes Schröder

O propósito do Livro de Atos dos Apóstolos


Considerando que o Livro de Atos é uma continuidade do Evangelho de Lucas, seu intento é apresentar um relatório de investigação, por meio de narrativa ordenada dos fatos que envolveram Cristo e seus Apóstolos, com o fim de demonstrar a operosidade do evangelho pela ação do Espírito Santo para o cumprimento integral da “Grande Comissão”, a qual alcançou seu ápice ao chegar aos confins da Terra, levando a salvação tanto para os judeus como para os samaritanos e gentios, por meio dos ministérios dos apóstolos Pedro e Paulo.
Ainda que não seja seu propósito, ao Livro de Atos pode ser atribuído um objetivo de defesa dos desígnios da noviça Igreja de Cristo e apaziguamento dos seguidores que discordavam ou aprovavam o divórcio entre o novo “caminho” e o judaísmo, pois, para apresentar a unidade de propósito doutrinário expõe Pedro, o “conservador”, em comunhão com os gentios e Paulo, o “liberal”, se submetendo à ritualística do judaísmo. Tenho que este foi o principal papel de Atos na era patrística.
A grande comissão do Livro de Atos no “mundo gentílico” de nossos dias é edificar os cristãos pela propagação dos exemplos passados quando estampa a perseverança, a oração, o propósito de comunhão e solidariedade entre os irmãos. O Livro de Atos é o aio da obra viva de Cristo crucificado. É o registro da revelação da ação e do poder do Espírito Santo na Igreja. Em uma visão apaixonada, a igreja contemporânea sem o Livro de Atos correria o risco de tornar o Evangelho uma mera filosofia de vida ou de princípios éticos; sem vida espiritual.
André Luiz Gomes Schröder 

A prática pedagógica de Jesus pode iluminar nossos trabalhos educacionais hoje?


A pedagogia de Jesus tem por característica a “prática” – ou práxis – em relevo ao discurso e à fala. Ele não apenas recomenda a prática de seus ensinos como também põe em prática, à vista de todos, a sua graça e sua misericórdia por meio das curas ou defesa dos oprimidos, para que lhes seja devolvida a dignidade e a esperança. O resultado é a exigência de uma religiosidade frutuosa, regada de misericórdia, amor e valorização do ser humano.
Tal pedagogia se manifesta em um ambiente familiar, caseiro, “formado nas coisas da vida, no tempo em que era um simples artesão”, a partir de experiências reais que se manifestam em um contexto de necessidade libertadora.
Ao delinear tal quadro, a prática pedagógica de Jesus se mostra como o melhor exemplo para inspirar uma prática pedagógica da educação secular, porque nos conclama a viver o amor e a tolerância, pois viver como Jesus viveu é compreender e aceitar a cultura do outro para viver o evangelho livre de preconceitos e fundamentado na igualdade entre os homens. Daí dizer que Jesus nos mostra como viver a vida humana plena.
Em Cristo encontramos os fundamentos que as atuais teorias pedagógicas aspiram, pois sua prática pedagógica se estrutura na justiça e na verdade, bases sólidas de valores reais.
André Luiz Gomes Schröder 

O paradoxo da Teologia Prática


Há quem defenda que “a Teologia Prática como caminho torna-se ao mesmo tempo mais urgente e mais remota”. Tal afirmativa encontra fundamento em um contexto social de predomínio do individualismo e da exclusão social daqueles que são menos favorecidos pela [falta de] oportunidades propiciadas por um sistema roto, fruto de uma sociedade capitalista e de consumo, que se consolida discriminatória e elitista face à prática da exclusão pelo exercício da valoração com base no princípio de que o homem/cidadão “vale o que tem”.
Assim, para que tal paradigma social seja rompido, é necessária a prática de uma teologia pastoral que propugne pela justiça e igualdade social, pautada pelo amor Divino, o que equivale dizer que a Teologia Prática se torna mais “urgente”. Porém, a Teologia que é urgente torna-se remota ante a lógica humana que é induzida pelo egoísmo e individualismo, pois torna cada vez mais distante uma prática pastoral que vá ao encontro dos anseios dos excluídos e injustiçados pelo sistema para que se reestabeleça a coesão social.
Em suma, “a Teologia Prática como caminho torna-se ao mesmo tempo mais urgente e mais remota” é o reflexo do dualismo humano já prenunciado por Paulo: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rom. 7:19).
André Luiz Gomes Schröder 

O impacto da cidade, como espaço religioso, sobre a fé cristã


O ambiente capitalista em que são construídas as novas cidades determina novos valores para os homens. Valores construídos a partir do individualismo, dada a abrangência das múltiplas relações que se tornam superficiais com a ruptura da comunhão pela impossibilidade de se estabelecer tantos relacionamentos quanto o número de pessoas que estão “próximas”, pois nas metrópoles há o alargamento das distâncias entre trabalho-moradia, casa-amizades, igreja-família e outros, o que descaracteriza a vizinhança, desfazem-se as relações primárias e espontâneas, o que desqualifica os amigos, impõem-se as relações secundárias e funcionais, o que cria os colegas e os invisíveis, afetados pela indiferença.
Na prevalência de tal multiplicidade de relacionamentos superficiais cria-se o isolacionismo, pois não há vínculo com o próximo e este se torna um objeto ambulante, dada a falta do vínculo afetivo, daí a indiferença, o narcisismo, a autosuficiência e o egoísmo.
O ambiente urbano contribui para o isolacionismo ao criar espaços cada vez mais coletivos e quando subsiste o espaço individual, é espaço de isolamento. Para atender os espaços coletivos, rapidamente são destruídos os espaços antigos, cultural e religiosamente significativos.
É intrigante a leitura que o Pe J.B Libanio faz sobre o tema em seu artigo “A igreja na cidade”, ao argumentar que :
“a destruição dos espaços tradicionais afetou diretamente a pastoral e o imaginário religioso. O nosso inconsciente é feito de sons e cheiros, de toques e gostos, de visões e sentimentos, percebidos e armazenados. E toda vez que uma tecla os provoca, brotam as experiências passadas. Ora, o inconsciente religioso forma-se, no campo e nas pequenas cidades, com os incensos das igrejas, o dobrar dos sinos, o corte majestoso da igreja paroquial, o murmúrio das preces, o arrastar-se das procissões ao som estridente das bandas, o soar dos órgãos ou harmônios, a voz decidida e preceptiva do vigário. A grande cidade tem o condão de silenciar-lhe todos esses estímulos. Mais profunda ainda se dá a mudança, ao atingir a própria lógica espacial da cidade. Quando se diz vulgarmente que o shopping assumiu o lugar da catedral não se traduz simplesmente uma percepção visual. Revela tal fato a nova lógica espacial da grande cidade que afeta intimamente o universal religioso e de valores das pessoas. Com efeito, a centralidade da igreja matriz da pequena cidade refletia a posição de destaque do Transcendente na vida das pessoas e da sua mediação histórica institucional da Igreja. O shopping desloca o Transcendente religioso para o interior das pessoas, para fora do campo visual, cercando o mercado, a mercadoria, com o esplendor e a beleza, que antes vestiam os ritos religiosos.” (Disponível em: http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=221)
Em um quadro de isolamento coletivo o homem é provocado pelo instinto animal da luta pela sobrevivência, orientado por uma ideologia de sucesso, eficácia, desempenho, competitividade, excelência e qualidade total para ser o melhor, “se lixando” (lembrando a expressão do deputado Sérgio Moraes, homem público que busca o individualismo) pelo que os outros estão passando e acaba por embriagar-se em um consumismo compulsivo, consumismo que comanda os desejos do homem e ocupa o inconsciente da religiosidade. Daí a necessidade de despertar o homem para a lógica da fé que orienta o homem para uma prática cristã voltada para o amor ao próximo, que aniquila a indiferença e o individualismo, pois a lógica do evangelho é firmada no conceito comunitário e de koinonia, o que impõe à prática pastoral um discurso contrário à lógica urbana do individualismo.
André Luiz Gomes Schröder 

A relação entre Teologia Prática e educação

Tendo por base pedagogia vista como “ciência derivada da ética e coordenada com a política” e a educação como “a direção e prosseguimento do desenvolver do indivíduo pela influência exterior”, onde manifesta ações da família, igreja, ciência e, sobretudo, da comunidade em que está inserido, podemos afirmar que a teologia prática orienta a formação e a prática pastoral para uma interpretação das necessidades da igreja que são vistas não somente pela interpretação dogmática.
Se a educação é centrada na relação do indivíduo com o exterior, podemos afirmar que há uma relação entre o indivíduo e o seu próprio destino, pois pela educação o indivíduo pode atuar sobre suas potencialidades e sobre as possibilidades da realidade de seu mundo exterior, tornando o indivíduo dono do seu próprio destino. Balizada por tal princípio, a educação tem por propósito a busca do caminho que leve ao atendimento das aspirações ou melhoria e satisfação da necessidades dos indivíduos e da sociedade.
A partir dessa visão da educação, a Teologia Prática encontra seu nicho de atuação, não com uma atuação consciente sobre o conhecimento e as relações sociais (nicho da educação), mas sobre a relação espiritual entre Deus e o homem, que ao viver em absoluta dependência de Deus constrói uma nova práxis de relações humanas que acaba por influenciar na vida diária da sociedade e na própria concepção do homem (o que passa a coincidir com objetivos da educação).
Tal concepção pode ser verificada na teoria de Casiano Floristán, também explorado na atividade 03, “toda práxis religiosa tem como objetivo último a transformação de um determinado ser social, que por sua vez transforma a sociedade [o que nos leva a] considerar a tradição cristã como transmissão de práticas e ações. Neste sentido o Cristianismo se configura como comunidade de narração de uma práxis profética e messiânica".
Ronaldo Muñoz diz que “ a Igreja e suas comunidade hão de oferecer às pessoas o espaço e as condições de que necessitam para dizer sua própria palavra, expondo seus problemas, sua visão da vida e da convivência humana, sua fé e esperança. Hão de dar-lhes o espaço de que necessitam para criar e multiplicar seus gestos de solidariedade nas necessidades, no trabalho, gestos que devem antecipar um mundo novo, como sinais da presença do reinado de Deus que alimentam a esperança de sua plenitude futura”. Tal espaço é o espaço da prática pastoral orientado pela Teologia Prática – em redundância – , da práxis da fé.
É nesse contexto de mudança social que surge a conceituação de "fé cidadã" a qual se concretiza na esfera pública, no mundo da política e busca incentivar e possibilitar a vivência de uma espiritualidade que considere a perspectiva política e articule a experiência da fé entre o privado e o público que resulte no exercício da cidadania.
Há, portanto, a comunhão dos objetivos educacionais e da Teologia Prática, vez que para ambos há o interesse em explorar os caminhos que levem ao atendimento das necessidades humanas e sociais, porém o diferencial está na relação transcendente entre o finito e o infinito, explorado pela Teologia prática e ignorado pela educação.
Aproveitando o ponto congruente da fé cidadã e da educação – antes mesmo de se perceber sistematicamente e se consolidar esta visão de seus objetivos – a educação passou a ser parte integrante da estratégia de ampliação e implantação das doutrinas religiosas mediante a ação missionária e instalação de escolas paroquiais, exigindo da ação pastoral, em sentido amplo, uma atuação como educador e como evangelista, tendo na alfabetização o caminho para o pleno conhecimento da Bíblia.
Assim, a estratégia da ação educativa pode ser interpretada como tendo um foco ideológico de proselitismo ao ampliar o alcance do evangelho por meio da inserção de um objetivo indireto em uma congregação com objetivos educacionais e um foco direto ao possibilitar a manutenção e estimulação dos “cultos” patrocinados em torno da comunidade escolar, culminando com o estabelecimento de uma civilização cristã do Reino de Deus.
André Luiz Gomes Schröder 

Cidadania do Reino e o Poder Público secular


A estreita via desta abordagem não comporta a pormenorização das temáticas da lex divina, lex natura e lex positiva.  Registramos apenas que foi a secularização do direito natural pela teoria dos valores objetivos da escolástica espanhola (Francisco de Vitória, Vazquez e Suarez) que, substituindo a vontade divina pela «natureza ou razão das coisas», deu origem a uma concepção secular do direito natural, posteriormente desenvolvida por Grotius, Pufendorf e Locke. São os preceitos da «rectae rationis» (noção explicitada logo por Guilherme de Ockam) que, desvinculados do peso metafísico e nomina-lístico, que conduzem à ideia de direitos naturais do indivíduo e à concepção de direitos humanos universais.  Por tal razão, direito inerente ao homem constitui o vínculo entre duas ordens distintas de direito: o Direito Divino e o Direito Positivo, o qual é a materialização – por meio de normas jurídicas – dos direitos fundados na própria natureza dos homens.
No âmbito do Direito Positivo, as instituições governamentais públicas adotam como formato de “cidadania” o uso, gozo e fruição dos direitos fundamentais do homem, no caso brasileiro são aqueles consolidados na Constituição Federal e que dizem respeito aos direitos de personalidade, que abarcam os direitos de estado (não raro traduzido como o próprio direito de cidadania), os direitos sobre a própria pessoa (direito à vida, à integridade moral e física, direito à privacidade), os direitos distintivos da personalidade (direito à identidade pessoal, direito à informática etc.) e muitos dos direitos de liberdade (tal qual o direito liberdade de expressão).
Para o Direito Divino, a “cidadania do Reino de Deus” é desenvolvida segundo os valores cristãos do evangelho, tendo o amor a Deus e ao próximo como norteador e isto faz do “cidadão do Reino” um paladino da paz que não aceita a violência, a criminalidade, a corrupção, a opressão e repressão armada que apenas aumente a mortandade, mas antes busca promover a igualdade social, o direito à vida, à integridade moral e física, direito à privacidade, o direito ao patrimônio e, sobretudo, o direito à liberdade, inclusive o de renúncia à cidadania celeste.
Assim, na defesa estatal dos “direitos fundamentais do homem” há uma congruência em prol dos valores defendidos pelo Reino de Deus, os quais são legítimos e desejáveis, porém não há, por parte dos entes públicos, uma defesa “oficial” e direta da “cidadania do Reino”, mas há uma defesa indireta, vez que os valores atribuídos à cidadania defendida pelo Estado nada mais é que uma transmutação dos valores da lex divina para a lex positiva, da qual o Estado é o guardião.
Se por um lado o Estado defende uma “cidadania do Reino” transmutada em “direitos fundamentais do homem”, por outro a “igreja”, por ser representante do “Reino” não pode se isolar como se fosse “guetos religiosos e políticos que aguardam a destruição do mundo”. A “igreja” é sal da Terra e luz do mundo, em outras palavras é a promotora da cidadania do Reino no dia-a-dia da sociedade.
No dizer de Júlio Zabatiero, Diante de situações de violência como a que enfrentamos em grandes cidades no Brasil, a população organizada precisa ir às ruas e dizer em alto e bom som: Precisamos nos educar, como povo de Deus e como sociedade brasileira, a viver em busca da permanente reconciliação e da paz social – paz que só se concretiza juntamente com a justiça. Chamadas e chamados por Jesus, somos cidadãs e cidadãos dos céus e também da Terra – e nela realizamos a missão, antecipando escatologicamente os céus que esperamos (Rm 8.18ss). 


André Luiz Gomes Schröder 

A eklesia e o mundo virtual

A cultura virtual busca impor um novo paradigma de “igreja” que foge ao modo tradicional de koinonia, pois estabelece relações impessoais, eletrônicas, de comunidades em que seus membros se expõem parcialmente, segundo critérios preconcebidos de exposição e relação onde prevalece a máscara escolhida pelo personagem, em uma exposição simulada muito mais facilmente que na “vida real” ou “material”, como quer que seja, pois a relação se dá em um ambiente onde se torna mais ocultar a verdade ou a intenção.
O mundo virtual possibilita dinamizar a transmissão da mensagem do “evangelho”, dada sua agilidade, velocidade, baixo custo, alcance e acessibilidade. Para clarificar, apontamos o registro parcial da discussão no site “www.cristianismohoje.com.br”, em que se posiciona: “o que o apóstolo Paulo pensaria a respeito do nosso mundo cibernético: blogs, salas de bate-papo, mensagens instantâneas. Imagine suas cartas para todas as igrejas do Novo Testamento. Em vez de “Carta de Paulo à igreja de Éfeso” ele teria escrito “Os múltiplos e-mails para a igreja de Éfeso”. E em vez de esperar até poder visitar a igreja para resolver um problema ele teria enviado mensagens instantâneas”.
Ocorre que a fé cristã é construída sobre o alicerce da participação individual na vida comunitária, na relação interpessoal pelo vínculo do amor que requer a participação física para o batismo, a celebração eucatística, a comunhão pelo partilhar os sentimentos e sentidos humanos. A comunhão acontece quando as pessoas estão em pequenos grupos ou envolvidas em amizades um a um.
Nesse contexto que trabalhamos nossa fé, somos moldados em amor, paciência, mansidão e verdade. É essencial que o espaço físico da igreja promova isto. Parte do que torna o corpo de Cristo tão único é a reunião e a comunhão dos irmãos. Era verdade nas igrejas do Novo Testamento e continua a ser verdade nas igrejas atualmente.
A Bíblia discorda de quem diz que é possível seguir a Deus sem a comunhão da igreja. As Escrituras nos dizem: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns” (Hebreus 10.25). Portanto, a comunhão cristã virtual não pode ser considerada uma alternativa viável para a comunhão nos cultos da igreja. A comunhão cristã virtual certamente pode complementar a variedade da comunhão face a face.
Por fim, temos que a comunhão virtual não promove a práxis da fé em sua completude, pois as expressões do ser humano não podem ser limitadas a um relacionamento mecânico e virtual.
André Luiz Gomes Schröder


A prática pastoral e os teólogos Friedric Daniel Schleiermacher, Juan Luis Segundo e Casiano Floristan


As contribuições dos teólogos Juan Luis Segundo e Casiano Floristan, mesmo estando separadas por centenas de anos da construção de Friedric Daniel Schleiermacher, elas se completam e exerce grande influência na prática pastoral contemporânea, principalmente aquela norteada por princípios libertadores e que tendem interpretar as afirmações sobre Deus, como interpretação da linguagem da fé, movida pela inter-relação com o sagrado e externada pela prática cristã.


Neste contexto, a prática teológica há de considerar a superação de um modelo teológico acentuadamente eclesiástico e clerical. Eclesiástico, porque sua função principal consiste em encontrar na Escritura e na Tradição fundamentos para o ensinamento do magistério pastoral. Clerical, porque é exercida exclusivamente por padres e pastores. Esta superação significa a passagem para uma teologia que busca, sobretudo, ser intérprete da linguagem religiosa como doadora de sentido de vida e com a participação da comunidade.


Friedrich Daniel Schleiermacher (1768 – 1834), filósofo e teólogo, apresenta uma estrutura da Teologia inspirada na corrente idealista de Platão e de Kant, dividindo-a em três facetas: filosófica, histórica e prática. Sendo que esta, a prática, recebe sua dedicação e nela está a relevância de sua contribuição, formatada a partir de sua concepção de Pedagogia como “ciência derivada da ética e coordenada com a política”, sendo a educação  “a direção e prosseguimento do desenvolver do indivíduo pela influência exterior”, onde manifesta ações da família, igreja, ciência e sobretudo, da comunidade em que está inserido. É essa concepção que influenciou seu pensar teológico, daí sua preocupação com a formação prática dos teólogos, culminando com a prática religiosa da igreja, a qual é balizada, dirigida, estimulada ou orientada pela prática pastoral mediante a interpretação das necessidades da igreja e não somente pela interpretação dogmática.


Walter Salles, em seu artigo “O estudo teológico da religião: Uma aproximação hermenêutica”, nos ensina que Schleiermacher concebe a Teologia Prática com o sentimento de que a religião é constitutiva de toda a vida humana, que a experiência do Infinito é, pois, sentimento que implica consciência da absoluta dependência de Deus, e a experiência de não se sentir a origem de si mesmo, uma vez que na religião o ser humano tem consciência de suas próprias limitações, da facticidade e da relatividade da sua existência e de vincular todos os afetos a Deus. Este sentimento torna-se parte integrante de toda a autocompreensão (autoconsciência) humana, que diante da absoluta dependência de Deus produz, constrói uma nova práxis de relações humanas que influenciam na vida diária da sociedade e na própria concepção do homem. Assim, a religião é concebida como a autoconsciência de um “ser-em-relação”, relação do finito com o Infinito e essa relação, como algo constitutivo do ser humano, diz respeito ao todo de sua existência.


Assim sendo, a Teologia se desenvolve no âmbito da afeição e receptividade, imediatidade e auto-experiência, e no que diz respeito ao seu estudo, somente podemos compreender a nossa relação com Deus, e não a realidade transcendente de Deus em si mesma. Assim, o exercício da teologia consiste em oferecer uma descrição clara e vivificante de uma experiência interior comum, ou seja, a teologia é a clarificação de uma experiência existencial concreta: o ponto de partida do trabalho teológico é a experiência de fé de diferentes pessoas em distintas situações.


Ainda na esteira de Walter Sales, Juan Luis Segundo (1925-1996), em sua obra intitulada “O dogma que liberta”, define de forma sucinta o seu trabalho teológico:  “o que de mim se exigia era a progressiva formação de um modo cristão e global de pensar que pudesse lançar luz sobre uma realidade complexa, na qual a fé de um grupo (preferentemente) de leigos se achasse comprometida”. Dessa forma, a teologia surge como a busca de sentido para a existência humana, ou ainda, consiste em ajudar o ser humano a ser mais humano, falando-lhe de Deus, do Deus que se revela. A Teologia deve, pois, ajudar o fiel a melhor compreender a sua fé em sintonia com a sua vida e a sua história, ou dito em termos neotestamentários, deve ajudar as pessoas a darem razão de sua esperança (1Pd 3,15).


Uma das riquezas da reflexão teológica de J.L.Segundo está no esforço em demonstrar a impossibilidade de uma ciência neutra, afinal toda ciência está a serviço de uma escala de valores, e isso é profundamente humano. Não existe pesquisa, por mais objetiva que pretenda ser, que não seja realizada fundamentada em um horizonte de interesses. Conhecer é sempre interpretar, e a estrutura hermenêutica de toda forma de saber faz-nos entrar com nossos paradigmas e categorias na interpretação do objeto de nossa experiência ou pesquisa.


J.L.Segundo faz da fé religiosa caso particular de uma dimensão antropológica universal, pois podemos dizer que todo ser humano necessita de testemunhos referenciais para articular seu mundo de valores, os quais são oferecidos pela sociedade e exigem um ato de fé, pois não podemos experimentar até as últimas conseqüências todos os valores que irão fundamentar a nossa existência antes de nos decidirmos por eles. Não sabemos por experiência própria o quão satisfatório será o caminho por nós escolhido, pois a nossa escolha implica uma aposta, sendo a idéia de um caminho satisfatório construída das experiências alheias, não comprovadas previamente por nós16. A fé como uma dimensão antropológica significa que ela é constitutiva do ser humano, representando uma aposta existencial e fazendo da sua verificabilidade última uma instância escatológica. Assumo algo como verdadeiro ainda que não o possa verificar empiricamente, por enquanto. Trata-se de uma reapropriação pessoal de valores simbolicamente manifestos no ambiente cultural por outras pessoas.


Segundo Casiano Floristán, “toda práxis religiosa tem como objetivo último a transformação de um determinado ser social, que por sua vez transforma a sociedade [o que nos leva a] considerar a tradição cristã como transmissão de práticas e ações. Neste sentido o Cristianismo se configura como comunidade de narração de uma práxis profética e messiânica. Na Bíblia, práxis é a obra ou ação produzida pelo homem com uma determinada conduta e perspectiva religiosa. A práxis de Jesus, que para os crentes é salvadora, se traduz na realização da obra de Deus. Toda a vida e obra de Jesus foi práxis”. Para Floristán, “Jesus não apenas fala, mas age (cf. Mt. 9:35-38). Assim,  ele vê no processo evangelizador de Jesus três aspectos: um caminhar com os pés, um olhar sobre a multidão e o toque das mãos, tudo com um único objetivo que é a mudança no cristão, que por sua vez produz mudanças na Igreja e na sociedade, pois a evangelização suscita fé e conversão pessoais, eclesiais e sociais.


Para desenvolver uma prática pastoral orientada pelas vertentes apresentadas, é necessária uma visão de fé diferente da fé dogmática, é preciso compreender que pessoas como nós viveram determinados acontecimentos históricos como revelação de Deus, querendo distingui-los de outros acontecimentos ordinários, e encarnam valores que dão sentido à existência humana. Por isso, por meio da fé religiosa, não se trata de declarar a aceitação de normas e dogmas, e sim aceitar uma proposta existencial apresentada e encarnada numa pessoa concreta.


A fé cristã é a aceitação dos valores que Deus propõe na pessoa de Jesus Cristo, e isso acontece pelos caminhos da história, marcada por conquistas, esperanças e dilemas humanos. A fé religiosa determina, pois, valores fundamentais naqueles que a aceitam, e na religião cristã esses valores ganham maior visibilidade com a proximidade do Reino de Deus proclamado por Jesus Cristo, proximidade que provoca uma metanóia, uma modificação radical na escala de valores (Mc 1, 14-15). A fé religiosa edificada da fé antropológica surge como fonte de uma nova estrutura significativa e deve dar soluções humanas a questões humanas, desde um processo que J.L.Segundo chama de aprender a aprender: “depositamos a fé humana naqueles que souberam manter certos valores, basicamente semelhantes aos nossos, aprendendo a realizá-los apesar de mudanças, incertezas e fracassos”. Aprender a aprender com pessoas que vivem esses valores em determinadas situações que são tidas como revelação de Deus.


A pastoral da Teologia Prática faz abertura aos problemas mais urgentes da humanidade, pois Deus é revelado nas vicissitudes, dramas, alegrias e esperanças do homem. A revelação de Deus não cai do céu, mas brota das experiências humanas cuja textura é sempre um apelo à interpretação, e esta concepção de revelação nos afasta da idéia de que a fé se tornaria religiosa quando abandonássemos as testemunhas humanas para apoiar-nos exclusivamente na autoridade de Deus, ou seja, deixar os sinais dos tempos para fixar nossos olhar nos sinais dos céus (Mt 16,1-4).


 Para a pastoral da práxis da fé, crer em Jesus como o Cristo, supõe que tenhamos fé naqueles que o conheceram, interpretaram e nos transmitiram sua crença nele, uma vez que não possuímos um acesso direto à sua vida e à sua palavra. O “eu creio” da fé pessoal supõe o “nós cremos” da tradição, e os relatos sobre Jesus são sempre atos interpretativos e não testemunhos objetivos.


Ronaldo Muñoz diz que “ a Igreja e suas comunidade hão de oferecer às pessoas o espaço e as condições de que necessitam para dizer sua própria palavra, expondo seus problemas, sua visão da vida e da convivência humana, sua fé e esperança. Hão de dar-lhes o espaço de que necessitam para criar e multiplicar seus gestos de solidariedade nas necessidades, no trabalho, gestos que devem antecipar um mundo novo, como sinais da presença do reinado de Deus que alimentam a esperança de sua plenitude futura”. Tal espaço é o espaço da prática pastoral orientado pela Teologia Prática – em redundância – , da práxis da fé.
André Luiz Gomes Schröder

A ERA DO MEDO: Pode o homem viver sem medo ou temor?

HOMILIA
André Luiz Gomes Schröder
“[...] não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?” [Mateus 6:31]

Quantos de vocês já investiram em segurança? Muros altos, portas reforçadas, grades nas janelas, alarmes nos carros... Quem já chegou a casa tarde da noite e ficou com medo, olhando para os lados com receio de ter alguém escondido à espreita?
Medo, segundo o Dicionário Aurélio, é “sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; susto, pavor, temor, terror”.
Estamos vivendo a “ERA DO MEDO”. O medo é tamanho que há o surgimento de uma nova doença: a síndrome do PÂNICO! Esta doença já é considerada um problema sério de saúde. Atualmente 2 a 4% da população mundial sofrem deste mal, que acomete mais mulheres do que homens em uma proporção de 3 para 1. São pessoas que relatam que possuem tanto medo que “toda vez que  me preparo para sair, tenho aquela  desagradável sensação no estômago  e me aterrorizo pensando que vou ter outra crise de pânico”.
Outro paciente relatou ao seu psicólogo: "De repente, eu senti uma terrível onda de medo, sem nenhum motivo. Meu coração disparou, tive dor no peito e dificuldade para respirar. Pensei que fosse morrer".
Essas pessoas chegaram a essa condição não por uma situação fática, real ou iminente, mas sim por um perigo imaginário, pelo medo do futuro.
Jesus Cristo, há dois mil anos, fez uma advertência muito atual e que hoje os homens padecem por não dar ouvido à sua voz. Em Mateus capítulo 6, versículo 25, Ele diz:
[...] Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Convido você para pensar e refletir: Pode o Homem viver sem medo ou temor? Onde está sua preocupação? Onde está concentrada sua atenção na direção da sua vida?

1 TEMOR MALÍGNO DO PRESENTE SÉCULO
Para que o receio chegue ao medo, ao temor, ao pânico, é necessário desencadear um processo de constante temor, fruto de uma constante insegurança. Insegurança quanto ao trabalho, a escola, alimento, vestuário; insegurança na vida sentimental; insegurança por querer se autoafirmar perante os amigos. É querer mostrar o último lançamento de celular, mostrar o “carrão”, a calça de grife, o MPTudo. 
Muitos estão ansiosos porque tem medo do sofrimento. Aquele sofrimento que pode vir pela dor em razão de uma doença que não é tão grave como verdadeiramente é, mas o sofrimento, este sim, é grave como se já estivesse à beira da morte.
Há o sofrimento pela falta do alimento ante a absoluta falta de possibilidade de prover a subsistência, mas há também a falta de alimento em razão dos gastos com o vício ou com a vaidade. São pessoas que nunca deram ouvido à voz do profeta  Isaías “porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? (55:2). A vaidade consome a maior parte do salário das pessoas.
Em meio ao turbilhão capitalista que torna o Homem cada vez mais preso ao imediatismo e ao consumismo, completamente refém das incertezas, devemos parar para ouvir a voz de Cristo que nos interpela:
Mateus 6:25-28 [...] Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam;
Não quero anunciar um movimento de “liberdade”, “falta de zelo”, “despreocupação” ou “irresponsabilidade”. Não defendo uma filosofia contemplativa da natureza sem nos preocuparmos com o que virá amanhã. Não estou anunciando um movimento hippe, mas quero mostrar onde deve estar centrada a nossa preocupação. A questão é quais os valores que devemos cultivar. O quê realmente faz a diferença em nossa vida, pois dentre as angústias causadas pelo materialismo há também o medo da solidão, desprezo ou abandono. Medo da separação, da perda e, o pior deles, “medo da morte”.
O medo da morte é angustiante, é cheio de incertezas. O medo da morte é apavorante porque seus olhos não veem além desta vida. Isso porque você olha com os olhos que é limitado pelo que é material. Eu te convido a abrir, hoje, os olhos da fé. Esqueça por alguns instantes  o plano de previdência, o plano de saúde, os investimentos seguros. Esqueça qual curso ou profissão que traz a garantia de dias melhores. Ouça agora o que Cristo tem a lhe dizer:
E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo [Mateus 10:28].
O que você tem preparado para depois de sua morte? Suas preocupações, suas angustias cuidam somente dos teus dias sobre a Terra? E depois da morte, o quê virá? “...não temais os que matam o corpo ... temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”.

2  TEMOR QUE DEVE ESTAR PRESENTE NA VIDA
Parece que estou sendo contraditório. Há pouco não falei que deveríamos nos livrar das preocupações deste mundo? Como é que estou dizendo que há temores que deve estar presente em nossas vidas?
É isso mesmo! Há “novos” tipos de temores que deve estar presente em nossas vidas. Devemos temer “aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”.
Talvez você possa estar pensando: “maldita a hora em que entrei aqui para ouvir essas palavras; não bastam minhas angústias, minhas incertezas, meu desespero?” Tenho agora que me preocupar com o que virá depois da morte? Como pode ser isso se não sei nem mesmo como será minha aposentadoria?
Meu amigo, o erro que consome o Homem é não se libertar da visão limitada por esse corpo humano e olhar para o universo, olhar para Deus, o Criador:
Salmo 8:3-5
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, A lua e as estrelas que formaste; Que é o Homem, para te lembrares dele? E o filho do Homem, para o visitares? Pois o fizeste pouco abaixo de Deus, de glória e de honra o coroaste.
- Espere aí! Onde está a glória e a honra do Homem? É a Bíblia que está declarando que o Homem tem honra e gloria, mas parece que minha honra e minha glória não são tão grandes assim. Não moro em um castelo, não tenho uma “carruagem motorizada”, não tenho roupas reais....
- Pare! Esta é a visão material. Olhe com os olhos da fé.
A glória e honra que Deus concede ao Homem é a possibilidade de estabelecer uma comunhão com Deus. Sendo Deus perfeito – sem pecado, em quem não há maldade ou injustiça, em quem há o poder criador que fez todas as coisas – não pode subsistir em sua presença a imperfeição. O Homem é imperfeito pois ele comete injustiça, pratica a maldade, corrompe o juízo e, pelo egoísmo e indiferença, suporta ver o semelhante passar necessidade enquanto se deleita na abundância.
- Então, se o Homem é imperfeito ele não pode ser revestido da honra e glória por Deus. É impossível a comunhão do Homem com Deus.
Verdadeiramente, seria impossível a comunhão do Homem com Deus se não fosse a disposição de Deus em se aproximar do Homem. Deus tem se esforçado para que o Homem tenha comunhão com Ele. Cristo disse: Vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. Ele está disposto a tirar das nossas costas o peso que tanto nos incomoda. E este é o peso do seus temores, o peso da sua ansiedade, do seu pânico.
Deus não quer simplesmente tirar o peso que lhe aflige. Ele lhe faz uma proposta, propõe uma troca. Ele quer trocar o seu peso de angústias, aflições desesperos e pânico pelo peso do fardo de Cristo.
- Que vantagem eu terei? Não estarei trocando seis por meia dúzia? Se eu vou carregar um fardo carrego aquele que eu já conheço.
- Não, meu amigo, nessa troca quem ganha é você.
O peso que Ele oferece é o peso de um fardo “leve e suave”. Cristo te chama para trilhar o caminho que Ele abriu.
Talvez você não perceba o que isso significa, pois está acostumado a andar em ruas asfaltadas, iluminadas, com postos de apoio por toda parte. Pense nos portugueses que chegaram ao Brasil quinhentos anos atrás. Não havia estradas, não havia carros, não tinha hotéis... não tinha Brasil. Se você desembarcasse em Porto Seguro (na Bahia que ainda não existia) e resolvesse caminhar até “Grande Dourados”, enfrentaria uma viagem por demais difícil. Seria necessário abrir seu próprio caminho, carregar todo o mantimento necessário, garantir que em sua rota haveria água, enfim, carregar até sua própria cama. Hoje nada disso seria necessário. As estradas estão abertas, há postos de apoio para comida e hospedagem. Tudo está mais fácil. 
O caminho que leva o Homem até Deus não estava aberto para Cristo. Foi necessário que Cristo abrisse esse caminho com a sua própria vida. Foi necessário que Cristo fosse crucificado, sem haver pecado, sem ter cometido nenhum erro, para que houvesse a regeneração do Homem e eu e você pudéssemos ser aceitos perante Deus com os nossos erros perdoados.
Mas hoje Deus faz uma pergunta: Quem há entre vós que tema a JEOVÁ? [...]  quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus. [Isaías 50: 10].
O seu “temor” é o “temor” de Deus? Deus quer um temor no sentido de reverência ou de respeito a Deus. Respeito e reverência querem dizer acatamento da autoridade. Acatamento da autoridade implica em obediência, para haver obediência é preciso aprender as regras e a regra de Deus é a regra do amor.
Deus promete força, apoio enquanto atravessamos as dificuldades. Ele não promete acabar com toda e qualquer dificuldade, mas promete ser a força necessária para vencer qualquer dificuldade. A promessa não é extinguir as distâncias, mas ser o apoio necessário para a viagem.
O apóstolo Pedro já ensinava aos seus discípulos: “Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” [I Pe 5:7].
O apóstolo Paulo exortou aos filipenses para que “não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pala súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus [4:6]
O erro do homem é ignorar apoio de Deus  e enfrentar sozinho seus temores, suas ansiedade. Não tenha medo de enfrentar seus problemas, tenha medo sim, de não contar com Deus para lhe auxiliar.
Quem és tu que te esqueces de Jeová, teu Criador, o qual estendeu os céus e fundou a terra; e que o dia todo temes continuamente por causa do furor do opressor, quando se prepara para destruir? onde está o furor do opressor? [Isaías 51:13]
Eu, eu sou o que vos conforta; quem és tu, para teres medo de um Homem que morre, e do filho do Homem que se tornará como feno? [Isaías 51:12]
Se há um temor que deve habitar permanentemente a vida do Homem, é o temor da separação de Deus, da falta de comunhão com Deus, do distanciamento de Deus.

3) AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA VIDA SEM TEMOR
Quando o Homem vive sem o temor a Deus e procura andar guiado por suas próprias regras, ele não pode contar com esse “Deus que conforta”, com o Deus que lhe dá a despreocupação com o que haverá de vestir ou o que haverá de comer, muito menos poderá ter qualquer esperança após a morte, pois andar sem o temor a Deus é andar em uma vale escuro, sem luz alguma e sem o amparo do Deus amoroso que se tornou como um homem e morreu sem pecado para restaurar o único caminho que nos leva ao Deus Pai.
Viver sem o temor a Deus é abraçar a condenação do pecado “Porque todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus” [Romanos 3:23]. A glória com que fomos revestidos, coroados na criação, nós a perdemos com o pecado. Somente o temor a Deus, que também é a fé em seu poder restaurador, poderá nos reconciliar com Deus.
Para aqueles que vivem sem o temor do Senhor só há uma condenação. Não há meio termo. Cristo garante que no julgamento final a sentença será: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos [Mateus 26:41]. Se a condenação para a vida futura é o fogo eterno, para a vida presente também não há esperança: é carregar sozinho o fardo desta vida.

Conclusão
Sabe por que tenho que temer a Deus? “Porque o salário do pecado é a morte” [Romanos 6:23]. Certo?  Errado! Tenho que temer a Deus, tenho que ter o temor reverencial, o temor de acatamento da autoridade de Deus porque  “o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor”.
A vida eterna é o dom de Deus para quem o teme, porém, estar reconciliado com Deus é também desfrutar de uma comunhão presente. Não é apenas uma comunhão futura. Não pense que Isaías profetizava sobre os céus ao falar que “quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus” [Isaías 50: 10]. Nos céus não haverá trevas. Nos céus haverá permanente luz sobre aqueles que em vida temeram ao Senhor e em vida receberam sua ajuda.
Porque eu, o SENHOR, teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: não temas, que eu te ajudo. Isaías 41:13 (RC) 
Faça, hoje, uma troca. Deixe todos os seus temores, angústias, inseguranças, pavor ou pânico e tema somente ao Senhor Jesus Cristo. Ouça a sua voz:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei [Mateus 11:28].
Ora, amados, visto que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus [II Coríntios 7:1].